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A mostrar mensagens de março, 2016

Feliz dia do Pai.

O dia 19 de Março nunca foi o teu dia. Não realmente. Era comum estar contigo, dar-te um beijinho no dia 19 mas na realidade era desprovido de tudo aquilo que os teus dias realmente tinham. O teu dia era o dia em que me ligavas, segunda-feira, ou terça-feira, e falavas comigo como se eu tivesse dez anos, e as «fofices» todas faziam-me revirar os olhos e rir-me ao mesmo tempo. O teu dia era o domingo em que ias à pesca com o teu amigo e chegavas a casa, calmo e sereno, como se tivesses tido a melhor actividade de sempre. O teu dia era dia em que eu chegava à sexta-feira de Lisboa e tinha direito ao mimo das maçãs descascadas, ou das fatias de queijo que não me deixavas cortar, ou da manga que tinhas que descascar. O teu dia era o dia em que preparavas um almoço com os amigos com o maior dos cuidados e ralhavas com a comida, que nunca estava bem mas toda a gente elogiava. O teu dia era o 10 de Agosto, que mesmo sem pedires muito, fazias questão de ter os teus amigos e o teu irmão e...

São as pequenas coisas, sabes.

O dia-a-dia parece normal. É feito de céu azul e raios de sol. Sorrisos, gargalhadas, mais um copo, mais um café, menos um prego. As mãos que me seguram o coração são de algodão doce e os colchões que me amparam a queda têm penas que não deixam caír. Às vezes, precisava de caír. São as pequenas coisas, sabes. É a história que partilho com aquele(a) desconhecido(a), que não consigo partilhar com mais ninguém. Parece terapia. É a música que ouço no meio de tantas outras, mas porque é «As velhas dos Açores» e me lembro que nunca mais vou ouvir o tom desafinado, à culpa de um copinho a mais, ao lado do tom dela, mas que encaixava tão bem. É a ginja que prometeste fazer este Verão, não consegues ver que já não há mais? É o carro que tem problemas que mais ninguém sabe resolver. É o telefonema aleatório, só porque me apetecia, porque hoje é quarta-feira e já não falo contigo há dois dias. É lembrar-me que a última vez que me lembro de ouvir a tua voz, estava a ouvir os D.A.M.A.. A...

E assim escapo-me.

Escapam-me as palavras por entre lágrimas não escorridas. Escapam-me e eu não sei agarrá-las de novo, fazê-las fazer sentido. A cabeça não descansa e o corpo só dorme de exaustão. Escapam-me as horas de sono. O dia-a-dia é fácil. É desprovido do vazio que teima em não chegar e eu espero (e desespero). Escapa-me a noção do tempo. Existem vinte e quatro horas num dia. E depois? Depois escapa-me o futuro. Escapa-me a estabilidade das mãos em dias mais fracos. E escapam e escorrem lágrimas das quais não vejo o fim. Prometi a mim mesma que ía escrever, que precisava de escrever mas escapa-me também a sensação de alívio. O hábito de sentir alívio enquanto escrevo o que sinto e o que hei-de sentir escapa-me também. Há pouco que não me escape. Há pouco que eu tenha pouca vontade de não deixar escapar. Perco-me em músicas e em dias bonitos. Perco-me em copos de vinho com os amigos que no dia seguinte deixam um vazio, porque já passou, porque me escapou mais uma vez e olá vida rea...