E assim escapo-me.

Escapam-me as palavras por entre lágrimas não escorridas. Escapam-me e eu não sei agarrá-las de novo, fazê-las fazer sentido. A cabeça não descansa e o corpo só dorme de exaustão. Escapam-me as horas de sono. O dia-a-dia é fácil. É desprovido do vazio que teima em não chegar e eu espero (e desespero). Escapa-me a noção do tempo. Existem vinte e quatro horas num dia. E depois?

Depois escapa-me o futuro. Escapa-me a estabilidade das mãos em dias mais fracos. E escapam e escorrem lágrimas das quais não vejo o fim. Prometi a mim mesma que ía escrever, que precisava de escrever mas escapa-me também a sensação de alívio. O hábito de sentir alívio enquanto escrevo o que sinto e o que hei-de sentir escapa-me também.

Há pouco que não me escape.
Há pouco que eu tenha pouca vontade de não deixar escapar.

Perco-me em músicas e em dias bonitos. Perco-me em copos de vinho com os amigos que no dia seguinte deixam um vazio, porque já passou, porque me escapou mais uma vez e olá vida real.

Perco-me em gastos consumistas. Perco-me na exigência do trabalho e na demanda dos amigos, da família, dos gatos. Perco-me no mural do facebook.

Perco-me em séries e filmes.

Perco-me porque não (me) sei perder. E perder é a minha maior prerrogativa. 

E assim escapo-me de sentir a perda. 

Comentários

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

It's not Friday but would you mind if I write you my thank you note?

Catorze meses.